segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mozart Troll

Em nome de todas as sopranos:
WOLFGANG AMADEUS MOZART, VAI TOMAR NO CU!!!

Assista este WTF clássico (se estiver com pressa, pule pros 10:00 e veja só o final):


MOZART VAI SE FUDER VC TA DE SACANAGEM NÉ

Fiz até tirinha original pra fudemorar (clique na imagem para ampliar):

GURIA, VOCÊ QUER ESTUDAR CANTO? MOZART TROLL DESMOTIVA VOCÊ.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Quem disse que ópera é coisa de gente inteligente e refinada?


Mozart, me perdoe!
Um tenor cantando papel de barítono-baixo, descamisado, com piercing nos mamilos, saltitando no quintal com um pegador de borboletas. Depois ainda tem gente que acha que ópera é coisa exclusiva de gente refinada e inteligente!

terça-feira, 15 de março de 2011

Ópera e preconceito

Olá pessoal. Eu gosto muito de ópera, acho muito mágico. Mas se tem uma coisa que eu não entendo é esse preconceito que o pessoal tem contra ópera. Vou responder por tópicos, espero esclarecer tudo.

QUE DIABOS É ÓPERA?
De modo simplista, ópera é o teatro 100% cantado, de origem européia. Os atores são cantores, ou melhor dizendo, os cantores são atores, e vivem uma história qualquer, como num filme. Mas enfim, o importante é que durante a encenação os atores não conversam entre si falando, mas cantando - por isso é diferente do teatro comum e dos "musicais" (em que a música não acontece o tempo todo, tem muita falação).
Ópera é a união suprema de duas artes no primeiro plano (a música e o teatro) e outras duas em segundo plano (a literatura e a dança), e acaba incluindo por tabela as outras artes também (pintura, escultura e arquitetura). Cada montagem de cenário é chamada de "ato", tipo, normalmente uma ópera em 3 atos possui três cenários diferentes e três momentos da história, um pra cada cenário.

"ÓPERA É COISA DE RICO / ELITISTA"
Quanto preconceito! No Brasil, por exemplo, a coisa mais difícil é uma ópera cobrar entrada! Normalmente as óperas são gratuitas, bancadas pelo governo ou pela prefeitura, como atividade da Secretaria de Cultura ou de lazer, ou ainda de educação; ou ainda fruto da iniciativa de instituições privadas que conseguem se manter sem cobrar entrada. Eu já assisti bastante ópera na vida e só paguei pra entrar uma vez que eu me lembre. Quando cobram a entrada, dificilmente passa de 10 reais - é o que você paga pra assistir um show de humor fuleiro, ou pra ir no cinema perder tempo dia de semana. Aliás, ópera nasceu historicamente para o povo consumir, não somente pra ricos. Ópera é uma linguagem universal, unindo poesia nobre, teatro e música. Reflitão.

"ÓPERA É COISA DE GRINGO"
Mentira! O teatro cantado tem manifestações nacionais legais também. Tudo bem que ninguém gosta de ópera brasileira né, mas não precisa negar que ela exista. Ah sim, a questão do idioma. O Português não é uma língua musical, fato. O fato de as melhores óperas serem européias não é problema, pois tem sempre a tradução automática sendo projetada acima do palco (ou dentro dele). Portanto, enquanto os atores cantam em italiano, alemão ou qualquer língua, você tem a tradução em português brasileiro clara e em tempo real logo acima da cabeça deles pra ler. Qualquer ser pensante assiste filme legendado porque é mais expressivo ouvir a voz original dos atores, então ir ao teatro e assistir uma "ópera legendada" na vida real não deve ser "coisa de gringo" não, é coisa de gente sensível e exigente mesmo!

"ÓPERA EXIGE ESTUDO PRÉVIO"
Não mesmo! (A não ser que você seja analfabeto.) Ao entrar no teatro você recebe o programa, que é um panfletinho com informações sobre os artistas e o evento. No programa consta um resumo da ópera, pra você ler rapidamente e saber mais ou menos como vai ser a história; às vezes tem spoilers chatos, às vezes não. Todavia, não é necessário ler o programa pra entender a ópera, basta ler as legendas/traduções dos diálogos e prestar atenção do começo ao fim.

"ÓPERA É COMPLICADA DE ENTENDER"
Novamente temos aqui outro preconceito sem fundamento. Os temas de ópera são comuns: triângulo amoroso, ciúmes, inveja, ganância, enfim, muita coisa que você vê todos os dias na novela televisiva. Eu costumo brincar que ópera é mistura de novela mexicana com musical, só que ao vivo e 100% cantado. Os temas são sempre assim tão humanos e genéricos, acessíveis? Não. Existe ópera sobre tudo quanto é assunto, por exemplo temas épicos, mitológicos, políticos, etc. mas isso raramente acontece no Brasil. Mesmo nesses casos não é necessário entender de história nem de música nem da antiguidade clássica pra assistir uma ópera. Novamente, pra curtir basta ler o programa e acompanhar a história, no teatro mesmo, sem nenhuma preparação prévia (a não ser que você queira se tornar um especialista em ópera).

"ÓPERA É CANSATIVA"
Só se você for analfabeto[2]. Porque qualquer pessoa que consegue ver um filme legendado consegue acompanhar uma ópera [legendada] ao vivo, que dificilmente vai durar 2 horas. Se durar isso tudo, terá intervalo pra você esticar as pernas e lanchar, enquanto pensa "o que vai acontecer depois?". Talvez o que cansa seja uma posição ruim no teatro; aprenda a escolher os melhores assentos pra ficar confortável enquanto assiste o espetáculo, podendo ouvir bem a orquestra que acompanha e ao mesmo tempo ver bem os atores. Sugiro sentar-se no meio exato, nem muito na frente nem muito no fundo.
Outra coisa, em ópera o texto é muito mais resumido do que em filmes e teatro não-cantado, ou seja, enquanto no teatro/cinema se fala 5 frases, em ópera se fala 1. Isso porque os cantores precisam de espaço para embelezar cada palavra com melisma e coloratura, então a narrativa tem que ser mais sucinta e acessível, mas não necessariamente mais lenta (pelo contrário): isso facilita acompanhar a legenda projetada ao vivo sem impedir que você repare cada detalhe no palco.

"ÓPERA É CHATA"
Quem fala isso não sabe que existem vários estilos e temáticas pra ópera, assim como há pra filmes. Há desde as óperas cômicas até as políticas, passando pelas épicas, terror, drama, enfim, tem pra todos os gostos. Sem contar o eventual ar de sensualidade que, pelo fato de ser ao vivo, faz um simples beijo em ópera ser mais impactante que o sexo explícito das novelas da Globo! Talvez você tenha assistido uma única ópera na vida e achou chata porque não era do seu estilo, ou porque vc não quis prestar atenção nos acontecimentos. Mas é bom lembrar que existem óperas mais simples e mais complexas, mais longas e mais curtas [tipo meia hora], mais luxuosas e mais grosseiras, bem interpretadas e mal interpretadas.

"ÓPERA É MACHISTA / HETEROSSEXISTA"
Realmente, a maioria das óperas passa uma ideologia machista ou heterossexista - assim como 99% dos filmes e da programação televisiva, e nem por isso você deixa de assistir filmes e TV. Aliás, mesmo que algumas óperas coloquem a mulher como mero objeto ou como "o lado derrotado", a verdade é que as mulheres ganham salários maiores, mulheres são o destaque, mulheres levam o título de diva, mulheres são tudo que nós valorizamos e lembramos bem numa ópera! (Pra quem não sabe, o termo DIVA, usado corretamente, significa: primeira dama de uma ópera; normalmente uma soprano destacadíssima.) Ao invés de ser maléfico à mulher, como é o caso da TV aberta emburrecedora, é uma atividade que dignifica as atrizes-cantoras enquanto mulheres, destacando suas qualidades mesmo que o enredo seja machista-medieval.

"ÓPERA É BOBA"
Só se você considerar "bobo" um teatro-cantado que tenha eventualmente cenas de assassinato, sexo explícito, palavrões, e outras coisas impróprias para menores. O engraçado é que é considerada livre de censura [classificação] no Brasil, mesmo quando é totalmente imprópria para menores. Quem acha ópera algo tipo "igreja" ou "santinha" ou "infantilóide" certamente não sabe o que é ópera... Ópera é voltada normalmente para adultos e pouco se importa com a "moral", pelo contrário, tem sido historicamente uma forma de subversão à mesma (e sofreu censura em muitos casos).

"ÓPERA NÃO SEGUIU O AVANÇO TECNOLÓGICO"
Pelo contrário, hoje em dia que se justifica cada vez mais a manutenção dessa forma artística! Vamos pensar que a ópera não compete com os filmes por exemplo, ela apenas é uma outra forma artística paralela, tudo tem seu lugar. Não, eu não vou falar sobre como os recursos de sonorização, acústica, arquitetura, iluminação, enfim, não vou falar sobre como toda a evolução tecnológica ajudou a ópera. Quero falar sobre os meios pelos quais temos acesso a ópera hoje. Não, não vou falar que qualquer um baixa e assiste pela net, ou vê os trechos cortados pelo youtube não.
Bom, vamos primeiro pensar no DVD. Ele permite que vejamos a qualquer momento em casa a ópera, com legendas em vários idiomas, às vezes em dual audio para as partes faladas, às vezes com várias opções de ângulo de câmera para algumas cenas. Mas a tecnologia mais atual que está sendo implantada no Brasil é a transmissão em 3D em cinemas, seja a partir de uma gravação ou ao vivo mesmo (tipo uma ópera que esteja acontecendo na europa pode ser vista de vários países em altíssima qualidade).

ÓPERA 3D NO CINEMA?
Qual a vantagem de ver uma gravação de ópera em 3D no cinema? Por mais que o público faça barulho, você ouve cada nuance das vozes e da orquestra. Outra vantagem é que vc vê mais de perto, dos melhores ângulos, tudo gravado e selecionado a partir de uma performance ao vivo.
Eu tive o prazer de assistir a primeira ópera em 3D a ser transmitida no estado do Espírito Santo pelo Cinemark, no fds 12/03/2011; a saber, Carmen, de Bizet. A crítica não encontrou problemas musicais, mas reclamou muito da imagem e das legendas: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/885538-problemas-de-imagem-e-legenda-prejudicam-carmen-em-3d.shtml
Mas eu achei ótimo, bem melhor que assistir um DVD 2D na sala de casa; foi bem real a sensação de estar no teatro. Estive lá pra incentivar esse tipo de programação, espero que aconteça mais e mais frequentemente, e que o público de ópera cresça, tanto ao vivo quanto no cinema 3D. Espero que mais pessoas percam o preconceito contra ópera e passem a curtir a magia da ópera ao vivo (ou da transmissão em 3D) - que é muito mais mágica do que filmes/livros feitos a partir de óperas.

POR QUE GOSTAR DE ÓPERA?
Não tem resposta pra essa pergunta. Na verdade, vc não precisa gostar, vc precisa conhecer pra ser uma pessoa bem informada. O gosto depende do estilo e da vivência de cada um. São vários os motivos pra gostar de ópera. Uns gostam porque vêem cantores se esgoelando mostrando avançadas técnicas vocais, coloraturas, virtuosismos, etc. Outros querem apenas se emocionar com a história, vendo os atores em carne e osso, sentindo a respiração deles, a cena acontecendo de verdade ali a 3 metros de distância, e quem sabe conseguir uma foto ou autógrafo no final. Outros gostam da coisa visual toda, as roupas, o ambiente, etc. Outros vão mesmo só pra achar um[a] parceiro[a] cult e sensível para eventualidades amorosas. Outros pra se divertir, porque existem óperas buffas [de comédia] que são tipo stand up cult. Outros procuram surpresas e novidades, porque uma ópera nunca é apresentada da mesma forma: diferente dos filmes, a cada récita [apresentação] muda o feeling e pode haver pequenos improvisos, e a cada montagem [equipe/local] mudam os atores, as roupas, o cenário, etc.

"POR QUE EU DEVO ASSISTIR UMA ÓPERA?"
Não há motivo para ter preconceito, eu já provei isso detalhadamente, e cada um encontra motivos para gostar ou não, depois de conhecer, é claro. Você não precisa gostar nem se identificar com a coisa, mas eu ouso dizer que você deve assistir. Afinal, você paga impostos e tem direito do acesso à cultura, portanto tem um assento no teatro mais próximo te esperando. O importante é não ter preconceito e ir assistir ópera de vez em quando; afinal, não custa nada e enriquece nossa vida. É sua chance de conhecer outros estilos de canto e de voz. Assistir ópera conta pro nosso currículo cultural e nos liga ao passado - quando não existia TV nem cinema, tudo era ao vivo e em carne e osso. Como alguém pode dizer que não gosta de ópera se não assistiu nem três óperas na vida? Seria o mesmo que dizer que não gosta de filme porque assistiu A Lagoa Azul. Assite gente, eu garanto que muitos vão se apaixonar por ópera, e quem sabe até desenvolver um gosto refinado por algum estilo específico de ópera.

Agradeço ao @AngeloViolist por ajudar nessa postagem.
Yours,
@Silas_Co

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tromba Marina

Olá pessoal,
Queria mostrar pra vocês hoje a Tromba Marina, traduzido normalmente como Trompete de Maria, às vezes chamado erradamente de Trompete Marinho.

http://www.oriscus.com/mi/tm/img/memling.jpg

É um cordofone de uma ou duas cordas em formato triangular, como um berimbau tocado com arco de violoncello, com cavalete solto. É um instrumento medieval que sobreviveu do sec.XII até o barroco, usado para substituir o trompete (que era caro e chato de fabricar) imitando-lhe o timbre e o volume estridente.

Som e foto:


Brasileiro demonstrando e explicando o instrumento:



http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/7/72/Marine_trumpet.jpg/437px-Marine_trumpet.jpg

Site de um fabricante, com audio e fotos:
http://www.trombamarina.com/instruments/tromba-marina/

http://www.trombamarina.com/img/usr/tromba-chip-concert-cropped.jpg

Estudo organológico detalhado, sobre a história e a técnica do instrumento:
http://www.oriscus.com/mi/tm/

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8e/Syntagma12.png/800px-Syntagma12.png

As wikipedias em inglês, FRancês e ITaliano trazem dados ótimos:
http://EN.wikipedia.org/wiki/Tromba_marina

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Foda-se o seu corpo, sua mente; foda-se a sua saúde

Se você é músico ou pelo menos realista você sabe que
nenhum instrumento ou atividade musical é anatomicamente adequado.

Sim. Todo instrumento é anti-anatômico. Se você vai tocar sem a técnica, vc se fode e pode ficar aleijado. Mas mesmo que tecnicamente correto, seu corpo ganha lesões muito específicas, tendinite, LER, etc. Como a gente sempre faz um pouco além do recomendado, acaba se fodendo. Ou mesmo trabalhando normalmente, ganhamos uma lista de doenças e riscos à saúde, que motivaram o PL 1714/209/06/2011 que provê 20% de aumento a todos os músicos a título de insalubridade [link - com lista de doenças de músicos].

Música dá tanto prazer que a gente consegue ignorar a dor do excesso (link). Não é porque tudo tem limite não (inclusive seu corpo), é porque os instrumentos não se adaptam ao seu corpo - é você que tem que fazer o possível pra adaptar seu corpo a eles. Daí nascem as deformidades dos instrumentistas - das quais acho algumas belas, como mão de pianista.

Eu toco theremin, e tenho um blog sobre isso: http://teremin.blogspot.com/ Nem mesmo um instrumento invisível e impalpável é anatomicamente adequado: minha mão direita está com os dedos tortos e os braços ficam terrivelmente cansados. É semelhante a lesões de maestro. Lembro de uma amiga regente que quando começou a reger ficou com os bíceps enormes - sem deixar de ser super feminina, é claro. Ah, é só balançar os braços no ar em ambos os casos? Vai crendo...

Mas fiquem tranquilos, não são apenas os instrumentos e atividades musicais que são anti-anatômicos. Fenômenos naturais inevitáveis como a morte e o parto são anti-anatômicos também - este último tanto pra mãe quanto pra criança.

Mas voltando ao masoquismo dos músicos, que é o assunto desse post, querem saber uma forma de comprovar se alguém é músico de verdade? Pergunte-o se, hipoteticamente, tivesse que escolher entre ser completamente cego e completamente surdo, o que seria pior. Músicos sempre responderão que é pior ser surdo, e prefeririam, hipoteticamente, a cegueira total. Os demais seres humanos não-músicos dirão que é melhor não ouvir e continuar enxergando. Eu prefiro morrer do que perder a audição, sinceramente.

DEPOIS dessa introdução piegas, vamos desenvolver o assunto desse post. Vou começar com uma idéia.

O corpo deve servir à música. Não é a música que serve ao corpo.

Existem instrumentos, peças e atividades musicais que são verdadeiros atentados à saúde humana em todos os sentidos. Não quero nem me deter aos casos de loucura e demência causados por sons (sim, eles existem). Vou focar na parte muscular e óssea mesmo, e na saúde em geral (mental e fisiológica), em como a música pode foder isso tudo e ainda deixar o gostinho de "quero mais" na gente.


1) CARRILHÃO (ou órgão de sinos)

O carrilhão consiste em um conjunto de sinos de igreja, enormes, ligados a um mecanismo de alavancas que permitem você tocar os sinos como um órgão. Só que tudo é muito pesado, então o "console" consiste em bastões de madeira (ou metal) em que você dá socos com o punho serrado, então através de cabos de aço essas alavancas balançam os sinos. É realmente de deixar a mão e o punho roxos ou em carne viva, em alguns momentos. Leiam a seguinte matéria, sobre uma carrilhonista brasileira (sim, uma moça delicada tocando esse instrumento de brutamontes) em que ela confirma o que eu acabo de dizer:
http://www.folhasinfonica.com.br/materias.asp?id=99

Assistam a Olesya Rostovskaya, carrilhonista russa, tocando uma composição dela em um carrilhão pleno. Os pedais tocam os sinos mais graves:


Se quiser ver um concerto completo, mais virtuoso, com tudo que é possível fazer num carrilhão, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=i13yIWb96WA

Vale a pena assistir também o leve concerto para carrilhão e orquestra do Purcell:
http://www.youtube.com/watch?v=y4jG3pmGA2Q

Também tem um cartoon sobre a origem do carrilhão, muito divertido:
http://www.youtube.com/watch?v=4eTmwLD9MEs


2) PIANO: glissandi e clusters

Qualquer um sabe que o piano maltrata grandemente os músicos. Vamos começar falando do glissando: quando o pianista passa os dedos sobre o piano arrastando em todas as teclas muito rapidamente. Glissando com qualquer mão e em qualquer sentido sangra, deixa o dedo em carne viva e em alguns casos arranca a unha dos músicos. Já vi virtuosos e mestres em piano dizendo que não tem como evitar isso, é só pensar na música e evitar pensar no sofrimento, que sai... se as teclas encherem de sangue, costuma ficar uma flanelinha dentro do piano, você enxuga e limpa o sangue durante as pausas.

Você deve estar pensando "ah glissar de vez em quando não mata ninguém". Pois bem, muitas vezes os pianos de concerto são mais duros do que parece; e mesmo que todos os bons pianos fossem super moles, a ponta dos dedos não foi feita pra passar numa velocidade altíssima sobre as teclas, que são simplesmente mecanismos de alavanca. Ora bolas, teclas são alavancas, devem ser pressionadas de cima pra baixo, e não lateralmente, como num glissando.

Vou dar alguns exemplos. Durante o Concerto para a Mão Esquerda de Ravel o pianista deve glissar várias vezes da primeira à última tecla branca do piano em menos de 2 segundos utilizando a unha do polegar esquerdo. Eu já sangrei muito tentando tocar essa peça. Mas o pior é quando tem glissando em oitavas, ou seja, duas notas (ou mais) que devem ser arrastadas por uma mão apenas - no caso das oitavas, uma nota fica no dedinho mínimo e a outra fica no polegar, e, sim, os pianistas são forçados a arrastar o dedinho mínimo contra as teclas do piano sangre o que sangrar. Exemplo, o Cziffra tocando sua peça "Fantasia sobre William Tell", no compasso 49, que aparece na tela aos 4:44; e também no compasso 84, que vai na tela aos 5:52, tem um glissando de acordes na mão esquerda:
http://www.youtube.com/watch?v=0PyenH1JH38

Outro exemplo: em La Fantaisie Roumaine, uma passagem inteira de glissandos múltiplos na mão direita, do compasso 86 ao 88, a partir de 2:13:
http://www.youtube.com/watch?v=Yr4drXNaTkE
Kurtag fez uma peça infantil composta apenas de glissandi leves e lentos, que, se não for tocada num piano delicado e leve, é auto-mutilação na certa:
http://www.youtube.com/watch?v=pLbx5aSVEfM


Mas só os glissandos são a crueldade do piano? Não, não. Além de dar LER, tendinite e ser uma manicure sanguinária, o piano pode quebrar seu braço com clusters. A seguinte peça, segundo o livro Música de Invenção de Augusto de Campos, pede para se ouvir o impacto dos ossos do pianista, que deve tocar ffffff (para quem não é músico, quer dizer forticicicicicíssimo). Sim, o músico é instruído pela partitura a socar seu antebraço contra o piano até que a platéia ouça o barulho dos ossos rangendo. Eu toquei essa peça em 2010 na faculdade, meu braço ficou doendo 3 dias, fiquei com vários hematomas mas o roxo saiu rápido, e tive cortes no pulso e nos cotovelos. As mãos ficaram vermelhas por horas, pois clusters com a palma da mão doem pra caramba quando tem que sforzare (vejam a partir de 2:05):

Obs: novamente, isso é obra de uma mulher. A compositora se chama Galina Ustvolskaya, super feminina lá com sua saia cristã e seu braço malhado. Chamada popularmente de a "dama do martelo". Apelido super doce né? rsrs


3) TÓXICOS e interações com fumaça, fogo, armas, etc.

Esses elementos não são essencialmente musicais, tudo bem. Mas são comumente usados na música e em muitos casos são indispensáveis. Muita gente que participa de coral de ópera passa mal por inalar aquela fumacinha cenográfica tão comum no teatro.

O pianista japonês Yosuke Yamashita fez duas vezes um espetáculo em que ele improvisa jazz um piano enquanto o piano pega fogo. A primeira vez foi em 1973 numa floresta, para um filme do diretor Kiyoshi Awazu que está disponível nesse link o filme completo. A segunda vez, em 8 de março de 2008, numa praia japonesa, durou uns 10 minutos. Segue vídeo-notícia da performance:
http://www.youtube.com/watch?v=a7C8I_3HHaQ


Além das óbvias queimaduras leves que ele pode ter sofrido, tem toda a toxina da fumaça inalada, que é o que me preocuparia mais. Ele queria tocar até o piano parar de funcionar, mas tudo acabou se tornando numa batalha de vida ou morte, ser humano versus instrumento (fonte).

http://www.allmusiq.com/wp-content/uploads/2009/01/pianoer9.jpg

Não poderia deixar de mencionar diversas vezes em que é necessário para a música o uso de armas de fogo, produzindo aqueles barulhos ensurdecedores. O caso mais famoso é a Abertura 1812 do Tchaikovsky, que requer pelo menos 4 canhões (sim, canhões) atirando durante a música, foda-se o ouvido de quem estiver perto, canhões a partir de 7:50:
http://www.youtube.com/watch?v=0F5k70xwGSk
Isso ainda é menos ensurdecedor do que o som de uma festa rave ou uma boate ou um forró. Odeio som alto.

4) RITUAIS e encenações musicais

Se você não é músico, deixa eu resumir a história: na música "clássica" a partir do século XX, alguns rituais e encenações passaram a fazer parte da música, sendo impossível executar apenas sons. Nesses casos, os sons não fariam sentido musical por si mesmos, sem o ritual ou encenação.


Talvez o exemplo mais cruel disso seja a peça Goldstaub (Pó de ouro) de Stockhausen. Ela dura 4 dias e 4 noites, deve ser tocada por um conjunto de 3 ou 4 músicos. Nos 4 dias os músicos devem ficar em quartos separados, isolados, sem nenhuma comunicação, sem comida (apenas tomando água ou no máximo suco), com os ouvidos protegidos para não ouvir nenhum som, e evitando gerar qualquer som. Devem evitar se concentrar, ou seja, "não pensar em nada", devem evitar se mover, ficando a maior parte do tempo deitados como mortos; todavia, devem evitar também o sono, dormindo apenas o mínimo possível. É o tipo mais radical de meditação e limpeza mental que eu já vi.

Após 4 dias completos nesse ritual de preparação, bem tarde da noite do quarto dia, os músicos se encontram, SEM NENHUMA COMUNICAÇÃO, cada um pega seu instrumento, e sem combinar nada, começa a tocar sons simples e isolados, sem pensar no que estão tocando. Devem fazer isso de olhos fechados e percebendo auditivamente todo o som produzido por eles, mas sem se concentrar em QUE SOM seria esse, sem pensar em qual será o próximo som a tocar, etc. Ou seja, a tortura da meditação extrema não acabou.

Além de ficar uns 5 kilos mais magros, os músicos vão ter a sensação de ouvir pó de ouro caindo do céu, devido aos 4 dias de preparo, seja lá qual for o instrumento. A "limpeza espiritual" promovida por esse ritual faz com que os sons pareçam visíveis e palpáveis, e mesmo o músico conhecendo bem o som do seu instrumento, após os 4 dias de preparo vai parecer que é uma coisa mágica, de outro mundo, que ele nunca ouviu antes. Eu gostaria muito de tocar essa música, mas não achei outros 3 músicos pra participar comigo. Eu tenho experiência com longos jejuns e anorexia em geral, creio que o mais difícil mesmo seria ficar sem pensar, sem se mover e sem se comunicar. A propósito: numa música como essa, não existe público, pois apenas os músicos, que passaram por todo o processo de 4 dias, é que vão entender o sentido musical ali, pois a preparação é parte da música e gera a percepção sonora necessária para tocar/apreciar o "pó de ouro". Link para uma performance ao final do quarto dia: http://www.youtube.com/watch?v=l1jp3HibWAQ

Um outro ritual bem forte acontece no Concerto para Zheng e orquestra de cordas, do compositor chinês Tan Dun. Durante a peça a orquestra toda deve latir como se incorporasse espírito de cães e lobos, e no final, como num ritual xamãnico, todos menos o maestro ficam possuídos e começam a se debater, tocar sons desconexos e latir violentamente. Elementos da cultura chinesa, tibetana e indígenas americanas se misturam com a tradição de concerto européia. Assistam:


Em ópera a oposição dramática (o Mal ou o vilão) costuma ser representado como "satan", mesmo quando o cunho não é nada mitológico nem religioso, só pra se aproximar mesmo da cultura cristã e para aumentar a carga emocional da coisa (fonte). Aí em alguns momentos é muito normal o teatro da ópera envolver rituais "reais". Por exemplo, na ópera Un ballo in maschera de Verdi, no ato 1 cena 2, a Ulrika, uma bruxa negra contralto, sacrifica literalmente uma galinha no palco do teatro enquanto invoca o Rei do Inferno:

Obs.: Se você come frango, não tem moral de condenar alguém que, na umbanda, mata galinhas ritualmente.

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CONCLUSÃO

Amiguinhos, depois dessa reflexão, voltem à frase destacada lá em cima. O músico não é servido pela música, pelo contrário, ele serve à música com o seu corpo e sua vida se for preciso. O que os compositores pedirem, eu faço, se estiver musicalmente convencido. Volto a pocar meus dedos e braços no piano sempre que possível, pois a música como um todo compensa!

E viva à música!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Músicos mais criativos são os mais desonestos, diz estudo

Segundo um estudo americano, que virou notícia na Superinteressante, as pessoas mais criativas em geral (incluindo você, músico) são "moralmente mais flexíveis", ou seja, mais desonestas, trapaceiras, etc.

O estudo verificou que a inteligência da pessoa não é tão relevante para "determinar" suas escolhas morais, mas já sua criatividade... quanto mais criativo, mais atitudes moralmente reprováveis, e mais facilidade de inventar desculpas, álibis, etc.

Vejam:
http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/pessoas-criativas-sao-mais-desonestas/comment-page-4/#comment-179563

Ser um "livre-pensador" é tenso. Daqui a pouco vão taxar céticos e ateus de imorais, mas em nome da ciência, não mais somente em nome da igreja da esquina. Aí, meu amigo, prepare-se pra volta da caça às bruxas.

O que torna pessoas mais criativas mais flexíveis moralmente NÃO É A CRIATIVIDADE, É O PENSAMENTO. Por isso, seria muito simples conduzir uma pesquisa e provar que, em geral, quem pensa mais - ateus, etc. - também é moralmente flexível, ou seja, mais propício a se libertar dos padrões da sociedade e questioná-los, ou seja, são indesejados pela sociedade, ou seja, merecem ser banidos.

Não quero soar muito marxista, mas poxa, a educação não emancipa o povo, a educação estupidifica, tira a criatividade da criança. Antes da escola, arte é vida e vida é arte. Depois da escola, arte é arte e vida é vida. Ora bolas, por que crianças brasileiras, quando vão desenhar uma casinha com uma árvore, desenham um modelo de casa americana com uma macieira ao lado? Massificação, castração da criatividade. Não precisa pensar nem criar, precisa apenas obedecer. Afinal, quem precisa de gente criativa e pensante na sociedade? Precisam é de trabalhadores, nada mais.

Voltando ao assunto, se esses estudos - bem suspeitos - continuarem sendo veiculados pela mídia e talz, sem paranóia, fica muito fácil o moralismo das américas utilizar a pseudo-ciência e suas falácias contra grupos específicos de artistas ou ateus, uma vez que se comprova que esses são "moralmente flexíveis". Mas não citam o real motivo dessa flexibilidade: O PENSAMENTO. Pensar incomoda, que ninguém quer ser questionado. Muito menos o moralismo cristão.

Ah, e a propósito, continuem generalizando. Afinal, todo mundo que pensa é a mesma merda né. "Pessoas criativas".



UPDATE: 4 MAIO 2011

Eu não disse? EU NÃO DISSE?

Acima profetizei, abaixo a profecia se cumpre, vejam:

http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/deus+punitivo+mantem+as+pessoas+honestas/n1300118202506.html

Essa nova reportagem "científica" prova que quem não possui religião ou não acredita em punição divina é trapaceiro. É exatamente isso.

Só faltou argumentarem que, como afirmou repetidamente o filósofo brasileiro José Luiz Datena: os ateus são estupradores e criminosos pois não possuem deus no coração.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Plágio? Nada, é só citação sem dizer a fonte!

Primeiro ouçam o Concerto para piano e orquestra nº2 do Shostakovich, de 1957:


Agora entrem no seguinte link e ouçam o Concerto para piano e orquestra do maestro José Alberto Kaplan, de 1990:

http://www.compomus.mus.br/cds/audio/12%20Concerto%20para%20piano%20I%20MOV.mp3

Ao que parece, no seguinte site onde ele fornece as capas e todo o CD para download, não há referência ao fato de ele ter se baseado integralmente no Shostakovich para compor. Confiram as capas e o CD inteiro, para ouvir o resto. É música de primeira! Mas poxa, podia avisar aos desavisados que foi tipo uma construção sobre o Shostakovich, pra poderem ampliar o repertório auditivo, né? Lá vai:

http://www.compomus.mus.br/cds.php?ler=cd_kaplan&titulo=CD+Jos%E9+Alberto+Kaplan%3A+Obras+Orquestrais+%28patrocinado+pelo+FIC+-+Governo+da+Para%EDba%29

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jogos de acertar nome de nota / ler partitura

1) PROGRAMA SEM INSTALAÇÃO
"SpeedUp.exe" - um programinha simples que visa auxiliar na leitura de linhas suplementares das claves de sol e de fá. Basta extrair e abrir - não precisa instalar:

2) JOGO ONLINE
Escolha a modalidade (são três: 1 termos musicais 2 nome de nota 3 dedilhado) e o instrumento (vários disponíveis), depois é só clicar em BEGIN na barra à esquerda e curtir o jogo. Ele conta seu tempo e tem um ranking para os mais rápidos em ganhar cada fase do jogo.

3) JOGO ONLINE
Basta selecionar o nome da nota que aparece ao lado e clicar em NEXT CARD. Será contada automaticamente sua pontuação. Para zerar, clique em RESET SCORE. Para ver a "cola" das linhas e espaços, clique em ANSWER KEY. Pode também alternar entre claves de sol, fá e dó na terceira linha.

4) JOGO ONLINE
http://www.music.vt.edu/musicdictionary/appendix/notation/Notequiz.html
Esse oferece um tutorial em inglês. O quiz é assim, vc clica no nome da nota ele diz se tá certo ou errado, vc dá CONTINUE e talz.

5) OUTROS
Esqueci - existem vários. Procura aí no google, se achar um legal, me avise por favor!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Teclados virtuais de browser

Teclado tocável dentro de vídeo do Youtube, basta carregar o vídeo todo e dar o play. Tem três sons. Confira:

http://www.youtube.com/watch?v=3O1xZuhn3FE

Esse outro, do MGM, é só som de violão, de C3-E4:
http://www.youtube.com/watch?v=OtcpO4vipNU

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Eu sei, teclados virtuais não são lá muito musicais, MAS...

Se na emergência precisar de tirar o tom ou algo assim, vou listar algumas boas opções de teclados virtuais, todos no navegador, sem precisar baixar nem instalar nada:

1)
http://www.bgfl.org/bgfl/custom/resources_ftp/client_ftp/ks2/music/piano/index.htm
Esse possui vários sons (strings, sax, baixo, bateria, etc), e permite tocar acordes. Use as teclas AWSED etc.Uma oitava e uma quarta, C4-F5.

2)
http://www.music.vt.edu/musicdictionary/appendix/pitch/pitch.html
Esse é tocado só pelo mouse, mas ao mesmo tempo mostra na partitura onde fica a nota que você tá tocando, mostra a frequência (Hz) e o número midi da nota! Um piano completo, A0-C8.

3)
http://www.virtualpiano.net/
tocado pelo mouse, som sampleado melhor que os midis acima!


(tô tentando lembrar mais - aceito sugestões)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Pianinho de brinquedo

Quem nunca teve um pianinho de brinquedo né? Era um dos meus brinquedos favoritos. Ainda é.

Alguns compositores a partir do século passado levam esses brinquedinhos muito a sério. Fiz uma seleção de vídeos para demonstrar isso:

Concerto para Piano de Brinquedo e Orquestra. Compositor: http://www.matthewmcconnell.net/ Intérprete: http://www.keithkirchoff.com/



Suite para Piano de Brinquedo. Compositor: John Cage. Intérprete: Steve Butters.



Being and Becoming, para piano de brinquedo e processamento ao vivo.  Compositor e intérprete: Lou Bunk.



Agora pare de reclamar da vida e leve o SEU instrumento mais a sério e faça música, se necessário, com o fogão da sua vó.

Ah, tente ser menos generalista. Se Rimsky-Korsakov estivesse vivo, ele morderia a língua ao ler essa postagem, pois em seu manual de composição ele insistiu que não se pode escrever música pianística interessante dentro de duas oitavas...